by Flávio Souza Cruz

terça-feira 30 2003



[Publicado originalmente no Hiperfocus em 1/10/2003 10:06:20 PM]

Salve meu amigo Silveira ,



Christmas Island! Christmas Island! Meu Deus, onde você foi parar!? Os anos passam, o rumo das coisas faz capricho de nossos planos, mas você continua incansável nessa sua busca. Em verdade, uma velha amiga me disse com ar professoral, uma certa vez em Araxá, que a vida é um vazio. Lidar com este vazio, preencher este vazio é a única opção que nos resta. Não que isso não tivesse passado pela minha cabeça antes, mas a partir daquele dia passei a levar mais a sério aquela frase. Tornou-se claro o que ela queria me dizer com aquilo - salvar-me da ilusão ou das ilusões. Fico me perguntando se ela tocou meu céu do impossível ao contar "o segredo". Poderia dizer que ela matou a virgindade dos meus sonhos, mas seria maldade para comigo e com ela. Me lembro de já ter te contado isso uma vez. Me lembro de já ter me contado isso mil vezes. A vida é um vazio, a vida é um vazio, a vida é um vazio... e me repetir nessa melancolia inútil. A vida é um vazio a ser preenchido. A plenitude deste pensamento é a de alcançar uma serenidade para o inevitável, para a limitação da criatura finita, frágil, sem propósito. Mas toda as religiões ou toda forma de religiosidade, incluindo as atéias, nos querem fazer crer que a vida tem um sentido, que temos uma missão no mundo. A regra internalizada é essa - a vida tem sentido - sua vida tem sentido - minha vida tem sentido. E de repente POW... passo a descobrir que eu é quem sou o inventor dos sentidos.


Me lembrei das tuas buscas, Silveira. Li e reli a sua carta por 3 vezes. Tentei imaginar de fato o que está acontecendo contigo aí nessa ilha. Fiquei preocupado com seu sumiço, você escreveu bem - eu teria feito de tudo para evitar essa sua partida. Fiquei triste, o Paulo, a Nísia e o Jesualdo também me disseram. Falei também com o Nelson depois que recebi a carta. Ele saiu para o Marinho para tomar uma cachaça em sua homenagem. Achei muito engraçado. Não pude contê-lo. Recebi também as caixas de vinho e confesso que eles são o seu retrato quando passo na adega que acabei montando na copa. Obrigado. Por aqui as coisas vão trilhando o seu caminho, sabe-se lá para preencher o tal vazio da vida, ou do tempo. Na terça passada, dia 7, eu tive um sonho dos mais estranhos. Sonhei pela primeira vez na vida que tinha morrido. Olha só que loucura! Eu anotei tudo no computador pela manhã:

"eles estavam na fila me empurrando, mas eu sabia que ali era a Síria. Haviam outros também, brasileiros, mas ninguém mais conhecido. O passaporte, a identidade, o visto em mãos. Era uma espécie de galpão atrás de um muro alto e lá fora havia a guerra. A gritaria era enorme. Parecia um mercado persa, mas era o mercado do desespero. Vejo uma senhora gorda gritando e todos gritam de volta naquele idioma que eu não fazia idéia do que era. Árabes, árabes e mais árabes. Tento passar e o oficial de bigodes me libera. Saio por um grande portão e entro em um galpão ainda maior, parecendo uma enorme antesala de aeroporto, sinto o ar seco apertando minha garganta. Um casaco na mão e os documentos ainda por guardar. Olho assustado, vou andando, tento chegar até uma escada. Gritaria, os bancos se reviram, transformam-se em trincheiras. Agora são asiáticos com rifles nas mãos. E gritam. Sinto um fisgada no ombro e olho a cor do sangue se abrindo num vão pelo casaco. A dor aguda e mais um tiro no braço. Caio para o lado, tudo fica quente, uma dor, uma vontade de vomitar, tonteio, não posso morrer. Corro para o outro lado, mas pela frente, por trás levantam-se armas num fogo cerrado. Eu vejo tudo, vejo a inevitabilidade do fazer. Balas voando cortando ar e o cheiro de pólvora aumentam o sufoco. Grito com o corpo aberto, transpassado, cortado, rubro, varado pela morte. Não me safo. Eu morro."

Não sei se antecipo a guerra no Iraque, a guerra na Coréia ou minhas próprias batalhas. Dizem que sonhar com a morte é sinal que a pessoa passa por um conflito forte e precisa fazer uma opção. Transição e ruptura, renovação e amadurecimento, todas essas palavras eu encontrei na busca por uma interpretação. Eu já tinha sonhado com morte e como pessoas falecidas, mas nunca tinha sentido de uma forma tão crua a minha própria morte. Mas falar de arquétipos e símbolos não é contrariar o que a velha me disse? Se a vida é um vazio é por que ela é um evento de causalidade físico-química. Não uma singularidade, mas a repetição de um ciclo ininterrupto de transformação da matéria. Optei por me iludir e me instruir que essa organicidade toda é uma tolice. Quero dizer, foda-se!

Enfim, me pergunto se continuaremos a ter aquelas nossas conversas pela madrugada, se agora você está há onze fusos horários daqui. A carta tá me lembrando os papos de bêbado no Marinho. Eu queria te perguntar sobre o crepúsculo, pois senti tuas letras tingidas por uma cor de sol se escondendo por trás das águas, num tom laranja-rubro. E eu que nunca gostei de escrever cartas vou ter que te aturar agora nessa escrivinhação. Ponto. Cansei. A vida é mais bela que vazios. A vida é bela mesmo que no abismo de um monstro vazio. Eu aprendi a criar sentidos e agora criei um sentido para a tua ausência.


Um abraço meu a Fahan! Ele já deve saber quem eu sou...

Ernesto Rocatti

Ps. As coisas nos fascinam por se permitirem inesperadas.


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